Categoria Artigos

porWemerson Marinho

Entendendo um pouco de nossa sociedade líquida

Um dos principais pensadores do nosso tempo é Zygmunt Bauman um sociólogo polonês que desenvolveu o conceito de modernidade liquida para explicar o nosso momento atual.

Segundo ele nossa época, a qual chama de mundo líquido, é um tempo de liquidez, de fluidez, de volatilidade, de incerteza e insegurança. Toda a fixidez e referências morais da época anterior são retiradas do palco para dar espaço à logica do agora, do prazer, do consumo e da artificialidade.

Entender esse tempo nos ajuda a compreender que nada é fixo mais. Todas as relações estão mudando. O emprego já não possui mais segurança. São de natureza mais temporal, de meia jornada, baseado na relação empregado-empregador diretamente como pessoas jurídicas, por exemplo. E nasce a figura do desempregado crônico.

Nas relações pessoais predomina-se o a conexão, o sentido de amigo é ressignificado. As relações são cada vez mais frágeis. Um exemplo disso é o facebook onde pessoas ostentam ter  1000 amigos hoje, amanhã perde 5 e passa a ter 995 e no outro dia ganha mais 6 e agora tem 1001. Ou seja, no conceito anterior era chamado de amigo aquele com o qual possuímos uma relação de proximidade, de companheirismo, de confidencialidade, de boas conversas. Hoje, no entanto, é apenas alguém com quem me conecto e do qual posso me desconectar a qualquer momento sem traumas.  Acabar uma  amizade antes era algo muito difícil e que geralmente nos deixava muito constrangidos, hoje se resume a desconectar-se de alguém.

Essa relação frágil tem como pressuposto a transformação do ser humano em mercadoria que pode ser consumido e descartado ou excluído quando não serve mais. Nessa direção a pessoa perde seus referenciais de ação e tudo se passa como se fosse uma questão de escolher a melhor opção, com as melhores vantagens e, de preferência, nenhuma desvantagem.

O casamento, símbolo de uma relação estável, que levavam as pessoas ao altar para afirmarem umas às outras que estariam juntas até que a morte  viesse, perde o sentido. Por essa razão que existem tantos divórcios e que expressões como “ficar” vem se tornando comum.

No “ficar” revela-se a mentalidade que o outro é apenas um produto do qual busco o prazer, mas sem querer comprometimento. Relação sem compromisso. Sexo sem compromisso.

A modernidade líquida é uma leitura de nossos dias que nos permitem entender as razões de muitas coisas que nos acontecem. O ser humano se sente em relação à vida como um cliente frente às diversificadas opções de um supermercado. Ele endeusa se individualismo tratando tudo fora de si como objeto de consumo e exercendo o que ele entende como liberdade de escolha entre as muitas opções o mercado da vida oferece.

Não sabemos aonde isso vai nos levar, mas já percebemos que as pessoas estão se sentindo cada vez mais vazios. Isso porque o ser humano necessita de relações reais e não das artificiais como as virtuais. A sensação de liberdade plena de fazer o que acha certo sem se seguir uma direção nos frustra porque nos parece que o ser humano tem a necessidade de seguir algo maior do que ele. O relativismo moral promove a insegurança, mas a segurança é um elemento essencial para a felicidade humana.

Por isso, vemos o crescimento efervescente do fundamentalismo religioso. Não sabendo lidar com as necessidades expostas acima e não tendo referências firmes, muitos resolvem a tensão internas agarrando ao que faz sentido pra elas naquele momento. Daí alguns assumirem comportamentos, estilos de vida, crenças religiosas estranhas.

Penso que uma solução inicial seria tomar consciência das características do tempo. Busque encontrar alguma solidez na sua crença, nos seus valores e não suas convicções sem se tornar intolerante com os que não entendem o mundo da mesma forma.

E não existe caminho definido nessa experiência, o caminho será feito enquanto caminhamos.

Wemerson Marinho

 

 

porWemerson Marinho

Paternidade e função paterna

Ricardo T Trinca*
Toda criança ao nascer é órfã. Ter um pai e uma mãe são conquistas e aquisições posteriores, mas que podem não ocorrer. É necessário que o bebê se torne filho de alguém, ou seja, que uma mente possa se dedicar à tarefa de recebê-lo no mundo. Mas, se por um lado o bebê é um órfão, por outro ele nasce com preconcepções do encontro com um seio (Bion, 1962/1991) para o qual se dirigirá, e sobre sua recepção, ou melhor, sobre a presença de alguém a partir do qual poderá haver alguma ancoragem e encontro. Mas a preconcepção pode ser frustrada, dependendo das circunstâncias deste momento inicial, criando dificuldades significativas para os próximos passos do bebê.
Os pais recebem esse bebê, um ilustre desconhecido, que vai – aos poucos – se tornando familiar. A familiaridade é um processo complexo associado com a possibilidade tanto do bebê ser sonhado, quanto do estabelecimento de ritmos orgânicos da sua vida, com improvisações e melodias análogas às de uma banda de jazz. A amamentação, a troca de fraldas, o sono e o mimo são estabelecidos em um ritmo peculiar, relacionado tanto com as características inatas daquele bebê, quanto ao modo como ele é sonhado pelos pais. Ser sonhado significa participar da vida mental do outro; em última instância, existir.
Nesse momento inicial da vida, a função materna é a mais importante: ela é a função psíquica relacionada com a recepção da orfandade de um bebê que é pressentido como absolutamente dependente e que necessita de acolhimento, cuidados e continência. Mas, desde esse momento inicial da vida, a função paterna e a função materna estão interligadas e se tornam complementares. São funções mentais e não estão relacionadas diretamente com um ou outro gênero sexual, que desempenhe uma ou outra função necessariamente. Uma mãe tem função paterna, assim como um pai tem sua função materna e vice versa. Ser pai, portanto, é poder flutuar em um espectro de possibilidades formado entre essas duas funções. Não é mais novidade um homem ser predominantemente materno, ou um casal homoparental desempenhar, cada um, funções distintas ou ambas as funções. Também uma avó ou um avô pode desempenhar relativamente bem a função paterna ou a função materna. Culturalmente elas tendem a ser associadas ao pai e à mãe.
A função paterna nesse início da vida do bebê relaciona-se com dar condições de segurança, apoio e estabilidade para que aquele que desempenha a função materna possa fazê-lo integralmente. O bebê, neste momento, é o reflexo do desejo dos seus pais, desejo desconhecido, mas que aparentemente se tornou encarnado e vivo; é um ser-para-si (ser para a mãe), carecendo ainda de um mundo pessoal. Ele é o investimento narcísico daqueles que cuidam do bebê, e o reflexo deste investimento libidinal e imaginário. Bebês lindos e mães extenuadas e descuidadas são, muitas vezes, a cara e a coroa de uma mesma moeda. O bebê e a mãe, nesse sentido, são indistinguíveis. Não existe alguma coisa como um bebê independente, destituído de uma função materna que o acompanhe.
Mas, ao longo do crescimento do bebê, a função paterna passa a ser não mais periférica, assumindo um posto de maior centralidade na vida da mãe (ou daquele que representa a função materna) e, também, da criança. O cuidador do bebê precisa se haver com os desenvolvimentos motores e, portanto, com uma maior preocupação com o mundo, já que o bebê passa a adquirir paulatinamente maior autonomia. Mas ainda não é, de fato, uma verdadeira autonomia; assim o “não” surge como a primeira expressão nítida e fundamental da função paterna dirigida diretamente para o bebê. Ela tem a função de limitar os seus avanços no mundo que são feitos naturalmente, mas de modo pouco cuidadoso. Portanto, a função paterna tem como objetivo apresentar o mundo para a criança pequena, mas um mundo que se torne seguro para ela.
O “não” inicial limita certos avanços perigosos da criança (Winnicott, 1993/1999), mas é preciso levar em conta que um “sim” da relação desta criança com o mundo já foi, portanto, formado na mente desses pais. O “não” verdadeiro denota a formulação de um “sim” anterior. Esse “sim” é o desejo de que essa criança possa ter um mundo. O “não” passa a ser expressão do desejo de que a criança constitua um mundo, que vá além da relação com a função materna; um mundo relativamente seguro. Essa separação para com a “mãe” ou ampliação do universo da criança pequena é realizado pela função paterna, um verdadeiro ser-para-o-mundo. A função paterna é a função que separa mãe e bebê para poder dar as bases da simbolização, pelo início das relações triangulares, ou a base do pensamento simbólico. A função paterna, desse modo, separa a mãe da criança para incluí-la num mundo mais amplo, o mundo do universo simbólico e da castração. A função paterna, portanto, separa para incluir. E a função paterna melhor consegue fazer isso, quanto mais valorizada é a cultura e a alteridade na mente da mãe; ou o quanto a função paterna está interligada à função materna na sua vida mental.
A presença da função paterna e materna se mantém ao longo da vida dos pais, mudando de intensidade e de importância de acordo com as circunstâncias da vida do filho. Mas também são funções que se transmitem, de modo que um jovem adulto pode ter o seu próprio filho e valer-se das funções materna e paterna prontas para serem desempenhadas com uma nova criança, quando elas puderam ser incorporadas como parte da sua personalidade. Quando isso acontece, o filho pode prescindir dos seus pais.
A autonomia, portanto, é a finalidade da realização satisfatória da função paterna e materna na vida mental do filho. Os filhos, desse ponto de vista, podem ir adiante, fazendo com que os pais se tornem menos importantes. Deixar ser suplantado, tornado desimportante e poder orgulhar-se da autonomia do filho e da possibilidade de ser desimportante é o último bastião da função paterna. Trata-se de confiar que aquilo que foi transmitido poderá ser retransmitido nas futuras gerações; decididamente a função paterna é uma função associada com o mundo da cultura.
Um filho é tanto algo profundamente pessoal quanto um ser que se transforma em algo da cultura e do mundo. É um modo de presentear a cultura com nosso amor, deixando o filho ser no mundo aquilo que ele está, por alguma razão, destinado a ser além de nós.

Referências
Bion, W. R. (1991). O Aprender com a Experiência. Rio de Janeiro: Imago (Trabalho Original publicado em 1962).
Winnicott, D. W. (1999) Dizer “não”. In D. W. Winnicott, conversando com os pais (2 ed) São Paulo (SP): Martins Fontes (Trabalho Original publicado em 1993).
*Ricardo T Trinca é psicanalista, doutor em psicologia clínica pela USP, membro filiado ao instituto “Durval Marcondes” da SBPSP e autor do livro “A Visitação do Real nos Fatos Clínicos Psicanalíticos” (Edusp). E-mail: ricardotrinca@hotmail.com

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Source: Pscanalise

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