Sobre “Educação para a Morte”

porWemerson Marinho

Sobre “Educação para a Morte”

Marielle Kellermann Barbosa
O livro fala de cachorro, chocolate, champagne, pássaros brigando por frutas no quintal. Fala de pai, de mãe, de sexo, de dores inimagináveis e de mortes sombrias. É engraçado e, ao mesmo tempo, emocionante.
Segundo Hanna Segal, o prazer estético causado por uma obra de arte se dá pela identificação do expectador com a obra como um todo e também com a constelação mental do artista representado na tal obra (Segal 1952/1982). O que ocorre da seguinte maneira: o artista tem um mundo interno destruído como eu o tenho, no entanto, tem coragem de enfrentá-lo e faço o mesmo com ele. Na obra de arte, compõe um mundo unificado e completo e, portanto, saio reintegrado e enriquecido.

É tentador sugerir que isto ocorre porque em uma grande obra de arte o nível da negação do instinto de morte é menor do que em qualquer outra atividade humana, que o instinto de morte é reconhecido, tão plenamente como pode ser suportado. É expresso e aprisionado para as necessidades do instinto de vida e da criação (Segal, 1952/1982, p. 270).

Em posição depressiva, reintegrado e enriquecido é como se sai ao emergir do lado de lá da contracapa do livro da colega Luciana Saddi, “Educação para a Morte”, editado pela Patuá e publicado neste ano, de 2017.
É um livro de contos e estes têm um ritmo de linguagem como um trote leve e macio- há um conto sobre o amor de uma menina por cavalos, um cavalo, em especial – a leitura flui pelas linhas e um conto se alinhava ao outro em histórias muito particulares, de épocas passadas e em cenários atuais, que tocam questões de todos nós.
Os contos são independentes, mas não são, vão criando uma imagem de certa personagem, que pouco a pouco se define pelas diferentes notícias que vamos recebendo dela. A voz infantil da personagem de alguns contos tem aquela força que sentimos no jeito de contar da Clarice (Lispector), quando esta escreve que um pepino parece uma coisa inventada e que a fulana saberia que sua felicidade seria sempre clandestina. É a economia das palavras, condensando seu valor. Se não me falha a memória, em um livro da Clarice, a personagem diz: “Se eu fosse eu mesma, onde eu teria escondido…”.
Poderíamos dizer, em companhia da grande dama da nossa literatura, assim: se o escritor fosse ele mesmo, e se fosse escrever algo de verdade, o que escreveria? Parafraseando Clarice: se eu fosse eu mesma, o que eu escreveria? Esse parece ter sido o ponto de partida de Luciana Saddi para escrever esses contos.

Marielle Kellermann Barbosa é membro filiado. Não é crítica literária, apenas leitora

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Source: Pscanalise

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